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Verdade, uma ilusão.
Verdade, seu nome é mentira.¹

A fotografia costuma ser usada como forma de registro final de grandes eventos e acontecimentos. Para a história e para o jornalismo a fotografia ainda cumpre – na grande maioria das vezes – uma função testemunho, de registro visual. Se há uma fotografia, o fato ocorreu, se não, há dúvidas. Apesar de uma relação cada vez mais pragmática com a imagem fotográfica, ela ainda é usada como prova de um acontecimento, o que pode gerar ricas discussões sobre seu uso tanto na comunicação como na arte.

‘Sputnik 01’, 1997, Joan Fontcuberta
‘Sputnik 02’, 1997, Joan Fontcuberta

Não são poucos os artistas que tiram proveito desta relação de crença na imagem fotográfica. É impossível não lembrar dos trabalhos Sputnik, Fauna e Herbarium do catalão Joan Fontcuberta ao pensarmos nesta questão. Ao levar grandes feitos e descobertas ficcionais à fotografia, o pesquisador criou um curto circuito na maneira com a qual o público se relaciona com o seu trabalho, sendo forçado a desconfiar de cada uma das imagens apresentadas a seus olhos. Pode se dizer que, mais do que os temas em si, a existência e apreensão da fotografia são os grandes temas de sua obra.

‘Dendrite victoriosa’ (Herbarium), 1982, Joan Fontcuberta
‘Fauna’, 1989, Joan Fontcuberta y Pere Formiguera

Já o canadense Jeff Wall encontrou outro caminho interessante para unir história, ficção e fotografia. Sua imagens são milimetricamente posadas e, por vezes, baseadas em eventos reais. Ao contrário de Fontcuberta, que parece sempre nos deixar pequenas pistas de suas armações fotográficas, Wall busca criar o retrato mais fiel possível de uma realidade inventada. Suas imagens parecem instantes decisivos, captados por um fotojornalista ou flaneur que estava na hora certa no lugar certo, mas são, na verdade, diametralmente opostas a isto.  

‘Dead Troops Talk (a vision after an ambush of a Red Army Patrol, near Moqor, Afghanistan, winter 1986)’, 1992, Jeff Wall

Talvez seja graças aos esforços de artistas como Wall e Fontcuberta que, pouco a pouco, desenvolvemos uma visão mais crítica da relação entre fotografia e realidade. Crítica o suficiente para repensar nossa interpretação de uma das mais famosas fotografias da história: The Falling Soldier, de Robert Capa. Há hoje provas de que Capa encenou esta fotografia (especialmente pela descoberta da segunda foto apresentada abaixo), ficcionalizando um dos maiores momentos da história do fotojornalismo. Neste momento, eu me pergunto: quais são os problemas deste ato? Morreram soldados durante a guerra civil espanhola? Sim. A imagem representa de maneira bastante precisa uma destas possíveis mortes? Sim. No meu entendimento, ela representa este evento tão bem quanto uma fotografia não posada representaria. Uma fotografia nunca apresenta a realidade à sua frente. Cada imagem é uma intervenção, uma representação de um certo tema para emitir a opinião do fotógrafo que cria a imagem. Não há mais espaço para pensar o fotógrafo como um operador de equipamento. Ele sempre será um criador.

‘Falling Soldier’, 1936, Robert Capa
‘Falling Soldier’ (Outtake), 1936, Robert Capa

Esta visão pode parecer problemática para pensarmos o registro de grandes eventos, como a corrida espacial, a descoberta de novas espécies ou as infindas guerras que teimamos em criar, mas ela me parece mais precisa do que simplesmente encarar a fotografia como espelho da realidade. Todos sabemos como acontecimentos históricos são destacados ou ignorados de acordo com quem escreve sobre eles. Sabemos que a cultura de diversos povos é ignorada no ensino da história de muitos países e as tristes consequências que esta omissão pode trazer. Encarar a fotografia com olhos críticos e atentos é mais um passo para termos uma visão mais pragmática da nossa história, entendendo que nada é dado, tudo deve ser interpretado.  

¹O título deste texto foi retirado da música “Verdade, uma ilusão” de Marisa Monte.

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Felipe Abreu

Sou fotógrafo, editor, produtor de conteúdo e já fui videomaker. Edito desde 2011 a Revista OLD, que publica trabalhos de jovens fotógrafos e entrevista grandes nomes da fotografia. Além disso, minha produção autoral já foi apresentada nos principais festivais de fotografia do Brasil e já foi publicada nos EUA e Europa. Acabo de lançar meu primeiro fotolivro com a editora Vibrant e estou muito feliz com isso! Para finalizar, comecei a escrever sobre questões relacionadas a didática e processos criativos.