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O lugar de onde se vem – não apenas a família, uma determinada cultura ou religião e comunidade, mas também o território em si –, é tema de pesquisas de artistas nas mais diversas linguagens. Uma certa busca do “eu anterior a mim” ligada ao espaço. Na contramão de ir atrás do exótico ou desconhecido, são projetos que mergulham justamente no que o artista tem de mais próximo e pessoal, ou no que poderia ter sido próximo e, por alguma razão, está longe, acabou se perdendo, é desconhecido.

Na fotografia, assim como na literatura, o tema tem sido investigado de maneira interessante nas fronteiras entre biografia/documento e ficção. Enquanto no texto, muitas vezes, esse recurso autoficcional é mais lembrado pelos bastidores e pelas especulações (coincidências biográficas entre autor e narrador, ou entre autor e personagens; nível de detalhamento de algum episódio, normalmente embaraçoso; entrevistas dadas pelo autor etc), no campo da fotografia, muitas vezes, é o onírico que toma frente como resposta visual a este contato entre sujeito e história ou, ainda, entre sujeito e uma necessidade de compreender, registrar ou exorcizar situações no terreno dos afetos.

‘Ausländer’, 2012 – 2013, Priscilla Bühr

“Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.” A frase de José Saramago introduz o trabalho “Ausländer”, da fotógrafa brasileira Priscilla Bühr, e toca o centro de muitos destes projetos: o sentimento de estar em um lugar, mas ver-se constituído por histórias, lembranças, resquícios e vícios familiares, traços físicos… de outro – aonde nunca se foi, ou de onde se vem mas se é estrangeiro ao mesmo tempo. O ensaio da artista, vencedor do Prêmio Brasil de Fotografia 2013 na categoria Revelação, é uma busca de aproximação entre neta e avô. Aqui, o onírico aparece já na premissa: este encontro é apenas imaginário, não real; se dá em uma viagem de vinte dias da fotógrafa à terra do avô, um alemão que veio para o Brasil fugindo da Guerra. Nessa busca de “eixo”, como denomina Priscilla, ao encontrar-se com um espaço que já não era o mesmo em que vivera o seu avô, são feitas imagens delicadas, que acabam construindo a memória da artista e a falta de uma presença. O projeto se complementa com fotografias tiradas no Brasil, na casa em que o avô também viveu, no Recife.

‘Ausländer’, 2012 – 2013, Priscilla Bühr

O espanhol Jon Cazenave, em seu projeto “Ama Lur”, foi atrás do que “tornava ele um basco”. Após alguns meses de pesquisas, testes e imagens (o projeto durou anos), acabou concentrando o trabalho nas centenas de montanhas e cavernas da região dos Pirineus. O resultado – fotografias de pinturas rupestres, gotas d’água (ou estrelas?), peles de pessoas e de bichos e algumas formas abstratas ou incompreensíveis – lembra frames do filme “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, de Werner Herzog. A série de imagens, em preto e branco, tem um quê de ritual e, além de exposta em diversos espaços, foi finalizada no formato livro. O artista diz que, mais do que sua identidade como basco, o percurso o ajudou a descobrir o que o torna humano.

‘Ama Lur’, 2015, Jon Cazenave
‘Ama Lur’, 2015, Jon Cazenave
‘Ama Lur’, 2015, Jon Cazenave

Também foram publicados como livros os projetos “Italia o Italia” e “Ukraina Pasport”, de Federico Clavarino. O primeiro, se encaixa melhor no tema da autoficção, mas ambos são reflexões sobre território. “Italia o Italia”, como diz o texto preciso da editora Dalpine, “forma uma Itália mental”, a partir de símbolos inquietantes. São 136 páginas em um equilíbrio e unidade absoluto de composições, cores e tons, mostrando recantos supostamente vazios, mas carregados de detalhes que formam a ideia do espaço, dos seus moradores e de uma (outra possível) história. “Ukraina” (cronologicamente, anterior) foi impresso no formato de passaporte (tamanho, capa mole e outros detalhes gráficos), e investiga o país através de imagens fortes e mais diretas, um pouco menos simbólicas – quem sabe se pela menor proximidade do autor com o espaço. Ainda assim, realidade, nostalgia e um certo imaginário soviético se confundem em meio aos retratos, monumentos, árvores e bonecos de um tempo que é e que já foi.

Ukraina Pasport‘, 2011, Federico Clavarino
Italia o Italia‘, 2014, Federico Clavarino
Italia o Italia‘, 2014, Federico Clavarino

De volta ao Brasil, o trabalho “Estranhos Íntimos”, de Thiéle Elissa, propõe uma viagem interessante sobre os rostos de desconhecidos encontrados em seu caminho. A partir de uma fala de Walter Benjamin (“que diz que antes do desenvolvimento dos transportes coletivos, as pessoas não conheciam a situação de se olhar reciprocamente por minutos ou horas a fio sem dirigir a palavra umas às outras”), a fotógrafa passou a registrar olhares de usuários do metrô, em super closes forçados que a aproximam destes desconhecidos com quem divide o espaço, ao mesmo tempo que os desloca para um não-lugar, fantasioso, cósmico.

Estranhos Intimos‘, 2016, Thiéle Elissa
Estranhos Intimos‘, 2016, Thiéle Elissa
Autoportrait‘, 1999, Danica Dakíc

Danica Dakíc, nascida na Bósnia, é conhecida por problematizar, de diversas maneiras, a questão do imigrante, do território e da identidade. Em uma de suas primeiras obras, “Autoportrait” (1999), a artista fez um vídeo em que o seu rosto tinha duas bocas: a boca da testa contava uma lenda infantil em alemão e a outra, abaixo, em bósnio. Em 2004, Dakíc realizou o projeto “La Grande Galerie”, em que expandiu a questão da identidade para o outro, indo atrás do povo rom (cigano) e sua jornada. Aqui, a relação com o espaço é totalmente diferente, talvez menos de retorno e mais de movimento. O resultado visual impacta: oito retratados parados em frente à uma impressão em grande escala do quadro “Imaginary View of the Grande Galerie in the Louvre as a Ruin” (impressão fotográfica sobre placa de alumínio). O quadro representa supostas ruínas do Museu do Louvre, e a artista o deixa atrás dessas pessoas conhecidas por seu nomadismo voluntário e pelas deportações forçadas e perseguições que sofrem. Sem nunca desaparecer.

La Grande Galerie‘, 2004, Danica Dakíc

Site dos fotógrafos:

Priscilla Bühr

Jon Cazenave

Federico Clavarino

Thiéle Elissa

Danica Dakíc

Agradeço a Gabriela Pyles, Ronaldo Entler e Tiago Coelho por terem indicado alguns destes trabalhos.

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Laura Del Rey

Graduada em Cinema, atua como escritora, fotógrafa e designer. Em 2015, publicou seu primeiro fotolivro, "Hart", em parceria com Alziro Barbosa; em 2017, publicou o zine "Sobre ser uma linha", em parceria com Gui Athayde. Além destes, outros trabalhos seus foram expostos no Brasil e no exterior. Atualmente, coordena a editora Incompleta, escreve para a revista OLD e cursa o segundo ano da pós graduação em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. É editora da revista trimestral Puñado, que publica contos de autoras latino-americanas, e ministra oficinas curtas de criação.