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Fotografias de um quarto revirado com as janelas quebradas, de manchas de sangue na parede, de uma faca escondida, de um sutiã arrancado e jogado no chão e de um cadáver debaixo de um edredom que deixa entrever um pé.

Não existe praticamente nenhuma inspeção ocular técnico-policial na qual não se inclua de uma forma ou de outra a fotografia, a fim de constatar a veracidade dos fatos e recompilar todos os indícios e vestígios, bem como identificar os autores do crime e aportar ao tribunal os elementos para a sentença.

Há mais de cem anos, a fotografia tem demonstrado que constitui uma das fontes de evidência ou de prova mais precisa e confiável diante dos tribunais. Uma boa fotografia aplicada à investigação criminal é aquela que congrega os detalhes que finalmente servirão para colocar de manifesto o que interessa a uma investigação. Entretanto, gostaria de destacar outra perspectiva, quero dar um passo além da mera análise da fotografia que prova um crime. Como é habitual na minha prática profissional, quero examiná-la sob uma lente psicológica.

O assassino deixa rastros, é inevitável, mas além dos vestígios físicos também deixa os psicológicos.

O homicida é um narrador: com seus crimes quer falar de si e se expressar. Nós, como profissionais, temos que ser capazes de ler essa história, seu porquê, o como, a finalidade buscada com seus crimes.

Suas pegadas psicológicas ou comportamentais se mesclam com as pegadas de restos físicos ou biológicos. Ali, na cena do crime, encontramos um misto de sangue, sémen ou saliva com sentimentos, desejos, taturas.

Embora “não haja nada mais fácil que condenar um maligno, não há nada mais difícil que entendê-lo”, a história está ali pronta para ser vista e lida. Uma foto. Em cada fotograma da cena de um crime é possível ver plasmada a personalidade do assassino e seus rastros físicos. Seus vestígios. Temos que descobrir quem é, como atuou e principalmente… por quê.

Quando nos perguntamos “como”, estamos nos referindo ao modus operandi, que em latim significa “método de atuação”, ou seja, o conjunto de ações cometidas por um agressor com o propósito de completar exitosamente uma agressão. Reflete como se cometeu um delito, que tipo de arma foi utilizada, como foi morto, se utilizou algo para proteger a sua identidade, como fugiu, etc.

A teatralização ocorre quando o agressor altera intencionalmente a cena de um delito antes da chegada das autoridades, e principalmente por duas razoes: para conduzir a investigação para longe do suspeito mais óbvio ou para proteger a vítima ou a sua família.

Tudo o que descrevemos são partes de um perfil criminológico que nos ajuda a entender quem é esse narrador que nos deixa uma história de violência e de sofrimento.

Tentamos com cada fotografia reconstruir sua história e cada caso é único, como suas fotografias.

Gostaria de contar um caso que particularmente me impactou, e que continuo utilizando como exemplo em minhas aulas universitárias, como professor.

É 2 de novembro de 2007 em Perugia, Itália, e é já de tarde quando na casa da rua Della Pergola 7 encontram um cadáver. É o corpo de Meredith Kercher, uma estudante inglesa de 21 anos que chegara a Itália como participante do programa Erasmus, na Universidade de Perugia.

Meredith foi violada, esfaqueada 47 vezes e degolada. Segundo a autópsia, o óbito ocorreu entre às 22h e às 00h do dia 1 de novembro.

As investigações não demoram a começar e a partir de conversas com amigos da garota os investigadores se concentram em dois suspeitos, a companheira de apartamento de Meredith e seu namorado: Amanda Knox e Raffaele Sollecito.

Foi Raffaele quem chamou a polícia depois de que sua namorada lhe comentara o que tinha visto: o quarto de Meredith estava fechado com chave e os vidros das janelas quebrados como se alguém tivesse entrado na casa.

Depois de muitas sessões e horas de interrogatório, finalmente foram presos no dia 6 de novembro.

Enquanto isso, um mandato de busca e captura internacional foi emitido a nome de Rudy Guedè, que acabou sendo preso na Alemanha.

A sua presença no local do crime é óbvia: há marcas de suas mãos no travesseiro de Meredith e na parede do quarto. Seu sémen foi encontrado no corpo da vítima e suas fezes no banheiro.

Mas voltemos a Amanda e Raffaele. Segundo os juízes de primeiro grau também foram eles que cometeram o crime (logo foram absolvidos em segundo grau, e depois condenados a 26 e 25 anos de prisão em terceiro).

http://www.injusticeinperugia.org/

O motivo? Um jogo sexual que acabou mal. Depois que Meredith se recusara a formar parte, iniciou-se a violência.

Rudy a violou e Raffaele e Amanda a esfaquearam, depois teatralizaram a cena de um roubo.

A versão de Amanda e Raffaele é que na noite do homicídio se encontravam na casa de Raffaele. Jantaram, fumaram erva e dormiram juntos até a manhã seguinte. Amanda se levantou mais ou menos às 10h e voltou para casa para tomar banho. Então viu a porta da casa aberta, algumas gotas de sangue no banheiro e a porta trancada do quarto de Meredith, que não respondia.

Quando voltou a casa de Raffaele contou ao namorado todos esses detalhes estranhos.

Vamos analisar os vestígios que também aparecem nas fotografias.

http://www.injusticeinperugia.org/

A dinâmica do homicídio indica mais de um assassino: Meredith foi despida com violência, com sugere o sutiã arrancado, e esfaqueada 47 vezes. O corpo não apresenta feridas de defesa, o que significa que alguém a agarrava. Há dois tipos de ferida por arma branca. É impossível que uma só pessoa possa fazer tudo isso simultaneamente.

Foram encontrados resíduos mistos de DNA de Amanda e Raffaele no sutiã, no banheiro e em uma faca encontrada na casa de Raffaele.

http://www.injusticeinperugia.org/

Além disso, os vestígios comportamentais sublinham uma incongruência com os relatos que narram Amanda e Raffaele. Os estilhaços da janela estão em cima da roupa desordenada. Isso significa que foi uma simulação de furto porque o esperado seria o contrário: primeiro se quebra a janela e depois se busca o que roubar.

http://www.injusticeinperugia.org/

Outra coisa que não me convence é o fato de que Amanda se banhara tranquilamente apesar de encontrar visíveis manchas de sangue no banheiro.

http://www.injusticeinperugia.org/

E por último, há incongruências verbais e não verbais no relato de Amanda no qual expõe sem nenhum problema ou censura seu prazer pelo sexo compulsivo e a falsa tristeza que tenta demonstrar. Além do estranho comportamento dela e de Raffaele durante a inspeção ocular da polícia.

Ainda há sobre esse caso muitas dúvidas, incongruências e mistérios.

Vimos muitas fotos de sangue, de violência, de feroz malignidade. Mas apenas uma para mim é a que mais dói dentro da alma: a de Meredith.

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Cristian Salomoni

Meu nome é Cristian Salomoni, meu interesse pelo comportamento humano me levou a estudar Ciências Politicas e Relações Internacionais na Universidade de Milão, além de várias pós-graduações no âmbito criminalístico e forense promovidas pela Universidade Autónoma de Barcelona e pela Universidade de Alcalá de Henares e uma graduação em Psicologia. Atualmente atuo no âmbito das ciências do comportamento, com ênfase no comportamento não verbal e na detecção de mentiras, temas que leciono em várias pós-graduações na Espanha. Sou vice-presidente da ACONVE (Asociación de Analistas Expertos en Comportamiento no Verbal) e participo de vários meios de comunicação na Espanha e em outros países, analisando casos ou temas da atualidade.