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Um amigo, participante do meu projeto “Construções Identitárias – work in progress”, comentou no texto que acompanha a sua foto que acreditava que as grandes diferenças na sociedade eram marcadas pela raça e pela religião, e que um dia descobriu que a questão que divide o mundo em dois é outra: o gênero, o masculino-feminino.

A sociedade, o entorno, geralmente nos marcar com um estigma no momento do nosso nascimento, com o gênero. Nascemos e já temos decidido qual será o papel que desempenharemos na sociedade. Educam-nos de diferentes maneiras, tratam-nos de maneira distinta, que linda!, que meninão!

E sim, podemos sair um pouco dos padrões estabelecidos, e se saímos de mais de um ou de dois estereótipos, invariavelmente chegam as críticas. Há aqueles que as assumem, heróis da transgressão que se sentem cômodos na luta diário do viver, mas não nos enganemos, em maior ou menor medida desejamos viver integrados à sociedade. E não estou falando de se desenvolver dentro daquele grupo de esquisitinhos como você, estou falando de poder ir a qualquer lugar e sentir que os olhares não nos traspassam.

O corpo com o qual formos sorteados marca uma maneira de se desenvolver na sociedade.

“Construcciones Identitarias – work in progress”, Mar C. Llop, 2013.

Outro amigo, um garoto Trans*(1), uma vez me disse que não tinha certeza sobre a necessidade de transitar, que estava bastante conformado com o seu corpo, mas que quando se dirigiam a ele de forma feminina todo o seu mundo vinha abaixo.

Se quer ser reconhecido da mesma maneira que você se sente, deverá refletir uma imagem correspondente. Nos idiomas latinos, até os objetos têm gênero! A cadeira, a mesa, o sofá, o céu, e a terra. Afinal, considerar a possibilidade de empreender um caminho em direção à vivência Trans* é uma questão corporal ou social? Cada pessoa é um mundo.

Eu transitei tardiamente, com mais de 40 primaveras nas costas. Não me entendia, não sabia, não encontrava a maneira de resolver o conflito corpo-expressão-desejo. E vou tentar explicar isso de forma simplificada:

“Construcciones Identitarias – work in progress”, Mar C. Llop, 2013.

Uma coisa é o que você sente, a sensação de pertencer a um grupo, a percepção de si mesme (2) e poder ser homem, mulher ou nenhuma das duas coisas. Outra é o desejo, para que lado fluem os impulsos afetivos e sexuais, de quem você se apaixona. Outra a expressão, como você apresenta a sua imagem, como se comunica com os demais. E outra coisa é o corpo que ganhou no nascimento, que pode ser modificado com a academia, a comida, a vestimenta ou, por que não, com hormônios e cirurgias.

Vivemos numa sociedade na qual o corpo tem muito peso e nos situa dentro de um papel. Uma sociedade rígida que nos exige um posicionamento quanto a gênero baseado em estereótipos que nos atacam, que nos exigem corpos perfeitos, principalmente para as mulheres, que nos diz como devemos ser: mulheres sensíveis, dóceis, amáveis, bonitas, cuidadoras… e homens fortes, dinâmicos, seguros, pouco sensíveis…

E por quê não romper com toda essa montagem e nos situar num panorama de três dimensões onde se possa crescer com uma livre expressão, escolher os papéis, emocionar-se com os desejos muito além dos corpos?

“Construcciones Identitarias – work in progress”, Mar C. Llop, 2013.

Um dia comecei a me socializar num petit comité com pessoas que viviam o gênero de maneira mais fluida, descontínua. Bom, pessoas que apesar de ter um corpo de homem, vestiam-se de mulher, ou mais ou menos isso, e se encontravam num local privado para tomar vinho e conversar sobre as suas sensações. Lá cheguei deixando para trás anos de solidões femininas. Algumas das garotas que costumavam frequentar essa ilha de intimidades compartidas começaram a transitar para expressar o gênero sentido também na vida pública. Pensei que um dia fotografaria meu próprio trânsito, mas neste momento vi que poderia começar a plasmar em imagem aqueles que começavam o caminho. Inspirada nas séries fotográficas de Eadweard Muybridge, pensei em captar as mudanças através do tempo, e assim nasceu a série “Em trânsito”. Já que estava dentro do assunto, disparava retratos que acompanhei com pequenos textos escritos pelos próprios modelos na tentativa de conformar um quebra-cabeças de experiências de pessoas Trans*.

“Construcciones Identitarias – work in progress”, Mar C. Llop, 2013.

Nesse momento, aproximou-se de mim um grupo de pessoas que já havia empreendido o trânsito; ou que ainda não o tinha iniciado; ou que simplesmente não consideravam essa possibilidade por circunstancias pessoais, por estarem cômodos neste fluir do gênero… o que intitulei como “Pessoas”. Ao mesmo tempo, numa época que eu mesma considerava transitar e que recebia uma grande quantidade de experiências, as minhas próprias e as dos demais, surgiu a linha de trabalho “Conceitos”, uma tentativa de captar sensações, debates, decisões das pessoas que se experimentavam nesse sentido. Finalmente, empreendi uma nova linha titulada “Vínculos”, com retratos dessas pessoas Trans* junto a seus familiares, companheiros/as, amizades… já que esse é um dos temas mais polêmicos na hora de decidir um trânsito, a relação com os demais.

“Construcciones Identitarias – work in progress”, Mar C. Llop, 2013.

As lutas dos movimentos Trans* finalmente ganharam peso e instituições como a ONU ou a União Europeia já fazem recomendações sobre a proteção da livre expressão de gênero e o desenvolvimento da personalidade. É preciso relembrar que não foi até 1990 que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decidiu tirar a homossexualidade que qualificava esses sentimentos, como patologias.

A imagem com a qual se tem representado a comunidade de pessoas Trans* tem sido historicamente e como regra geral pautada pelo grotesco, o excitante ou/e marginal.

Estamos num momento da história no qual finalmente saem à luz representações positivas do coletivo Trans*, já seja com profissionais da altura das irmãs Wachowski, diretoras de Matrix, que saíram do armário, ou modelos como Geena Rocero, que explicou ao mundo inteiro, sem que ninguém soubesse, que é uma pessoa trans numa conferência TED de 2014. Séries como TansParent aproximam essas vivências a partir do cotidiano e do conhecimento de causa, ou filmes como “A Garota Dinamarquesa” a partir do respeito. Marcas como HM, NoGender, ou Shiseido trabalham com modelos Trans* ou lidam com o gênero com um olhar renovado.

Há pessoas Trans* de todo tipo de procedência e preparação, hoje mais do que nunca é o momento de mostrar a cara, de criar entre referentes positivos, de ilustrar que existem muitas maneiras de ser Trans* e também para fazer entender que esse é um parâmetro a mais da nossa personalidade. Eu sou fotógrafa, simpática, magra, de raça mediterrânea, cozinheira, um pouco esportista e entre tantas outras coisas também uma mulher Trans*.

“Construcciones Identitarias – work in progress”, Mar C. Llop, 2013.

Chegou o momento de descontruir o gênero, trabalhar para que as pessoazinhas que estão crescendo possam se desenvolver em liberdade, que cada uma flua no seu sentir em direção a uma expressão mais livre independente do corpo sexuado que carregam e as preferências afetivas que lhes emocionam.

  1. Trans*, leia transvestido, transgênero, transexual…
  2. –e, como gênero neutro.
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Mar C. LLop

Nasci, estudei e vivo em Barcelona, minha cidade. Desde sempre sou fotógrafa freelance, e ativista Trans* desde 4 anos atrás quando decidi deixar de olhar aquilo que sempre desejei e comecei a sentí-lo. Apaixonada por música, dança, cinema e poesia, navego nas artes ingerindo sensações entre a calma e a tormenta.