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A visão é algo esplêndido, magnífico, um sentido que nos inunda de luz, de formas e de cor, um sentido que sem ele perderíamos o conceito de imagem. E é este, precisamente, o conceito de imagem que nos permite reconhecer objetos distintos.

Não obstante, o que significa reconhecer objetos distintos?

Geralmente, podemos reconhecer objetos já vistos, objetos parecidos com outros e, inclusive, reconhecer objetos totalmente novos. É evidente que a maioria de nós reconhece objetos do seu cotidiano, da mesma forma que se reconhece a fruta no mercado, inclusive podemos reconhecer uma melancia amarela e de forma quadrada, afinal não deixa de ser uma melancia.

Para a informação do leitor, eu nunca vi uma melancia amarela e quadrada. Se visse uma, seria a primeira vez. Quem não se lembra de ter visto algo pela primeira vez, algo novo, algo nunca visto antes? Por exemplo, um monumento, uma pessoa especifica, uma paisagem exótica.

Essa sensação de descobrir, de obter novas referências, porém, podemos realmente lembrar de ter visto algo totalmente novo?

A maioria de nós, sempre tem referências previas do que vemos. Podemos ver um objeto, classifica-lo, reconhecer e identificar aquelas características diferenciais que transformam um objeto em algo novo.

John Hinde Butlins, Postcards

Então, se eu vejo uma melancia amarela e quadrada, posso dizer que é um objeto totalmente novo ou parcialmente novo, por que na realidade, sei que é uma melancia por mais amarela que ela seja.

A maioria de nós não se lembra da primeira vez que viu algo totalmente novo. Algo sobre o qual não sabemos absolutamente nada, sobre o qual não temos nenhuma referência anterior. As últimas teorias cientificas, nos indicam que essa amnésia infantil se deve ao fato de que a área cerebral encarregada de processar e armazenar a memória consciente (o hipocampo), está em plena expansão e crescimento durante os primeiros anos de nossa vida {1}. Algum atrevido, inclusive, dirá que, nessa idade nosso cérebro está criando os padrões e as regras que nos vão permitir, no futuro, entender o novo, o desconhecido.

Há uma excelente palestra da TEDex do professor Danko Nikolic {2}, à qual eu tive eu o prazer de assistir no último outono, em que ele relatou de forma muito clara, a importância de se criarem regras a partir das imagens que entendemos como ferramenta para entender o que enxergamos. Por exemplo, os computadores são perfeitos em um universo finito e limitado. Os computadores são capazes de reconhecer qualquer imagem desde que a tenham guardada na sua memória. Dessa maneira, quanto mais imagens de gatinhos o computador tiver em sua memória, mais ele será eficiente em reconhecê-los. Mas o que acontece se o computador vir um gato diferente das imagens que ele tem armazenadas? Temo que ele não se dará conta que é um gato novo e quiçá vendo uma melancia amarela. Agora, analisemos como funciona um menino de quatro anos. O menino vê um carrinho de brinquedo, suficientemente grande para sentar-se nele, com rodas, volante e carroceria. Ele o vê, o examina detalhadamente, entende os elementos que o formam, aprende o que é um carro. Depois dessa primeira e única experiência, a criança é capaz de reconhecer qualquer carro, seja um Seat Panda ou um Jaguar. Maravilhoso! Apesar disso, os computadores são geniais jogando xadrez (e agora no GO{3}).

Akihiko Miyoshi, Pigment Migrations & Suspended Refraction, 2014.

Chegado a esse ponto, surge-me uma dúvida: o que aconteceria, se apesar de manter nossa memória e nossas capacidades intelectuais, perdêssemos as regras que nos permitem entender o mundo, entender o novo? Essas regras que elaboramos ao longo de toda nossa vida de forma quase inconsciente e desde praticamente o início de nossos dias.

Existe uma patologia humana causada principalmente pela lesão de uma área cerebral chamada córtex visual associativo que se chama agnosia visual. Essa patologia caracteriza-se pela incapacidade de reconhecer objetos. Os indivíduos afetados não apresentam nenhuma deficiência na percepção ou no intelecto, e mais, eles, apesar de não reconhecerem os objetos, são capazes de descrevê-los e desenhá-los com toda a riqueza de detalhes. São como os computadores, se o objeto tem algo diferente, que o torna novo, o conjunto em si passa a ser diferente, novo, pioneiro na forma e na função.

Todos procuramos ver algo novo, algo diferente, uma primeira vez. Porém, imaginemos um mundo onde a novidade absoluta seja tão presente, onde a cada mudança ou diferença, a função dos objetos necessite ser redescoberta, cada objeto seja único e misterioso e que estejamos totalmente perdidos, desorientados e sem referências. Como seria uma vida assim? Como seria uma vida na qual não reconhecêssemos objetos? Uma vida na qual cada imagem fosse complemente nova?

 

  1. Akers KG et al. Hippocampal Neurogenesis Regulates Forgetting During Adulthood and Infancy (2014) Science vol 344 pag 598-602. LINK
  2. Danko Nikolić. How to Make Intelligent Robots That Understand the World | TEDxESA (2015) . LINK
  3. Silver D et al. Mastering the game of Go with deep neural networks and tree search (2016) Nature Vol 529 Pag 484-489  LINK

 

 

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Jofre Tenorio Laranga

Formei-me em bioquímica pela Universidade Autônoma de Barcelona e doutorei-me em neurociência na Universidade de Valência, passei quase 10 anos da minha vida pesquisando os mistérios do cérebro e como ele envelhece chegando à conclusão de que por mais que se imagine, a natureza sempre te surpreende. Tenho trabalhado em diversos centros de investigação na Europa e, atualmente, resido em Barcelona, onde tento trazer inovação e avanços científicos à sociedade.